Mostrando postagens com marcador ARTIGO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ARTIGO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de junho de 2021

ARTIGO: Precisamos falar sobre o Ensino a Distância

Por: Eduardo Parente*

Eduardo Parente (Foto: Divulgação)

Não faz muito tempo, seja por desconhecimento, seja por mero preconceito, falava-se sobre a importância e a contribuição das instituições privadas para o ensino superior com um certo constrangimento. Felizmente, isso são águas passadas. Os números falam por si: as particulares abrigam hoje 76% dos 8,6 milhões de universitários no país e permitiram que, pela primeira vez, tenhamos mais alunos das classes C, D e E no ensino superior do que os de famílias das classes A e B. Além de escala e do perfil mais inclusivo do segmento privado, que tem 90% dos alunos oriundos das classes CDE, a tarefa de formar com qualidade também vem sendo realizada. Um dos balizadores mais importantes do setor, o Indicador de Diferença de Desempenho (IDD), mede justamente isto: a variação no desempenho acadêmico de um estudante ao fim do ensino médio (resultado no Enem) e no momento de sua graduação no nível superior (no Enade). De acordo com o censo mais recente do Inep (2019) as instituições privadas constituem 73% de todas com IDD considerado satisfatório (conceito 3 ou mais, numa escala de 1 a 5) e 72% das que possuem nota máxima.

Porém, se evoluímos em dar às instituições privadas seu devido peso e crédito, ainda persistem um certo nível de desconhecimento e um desconforto quando falamos do ensino a distância (ou ensino digital). Se observado sob as mesmas lentes da inclusão, da qualidade e do potencial de transformação social, o EaD representa uma verdadeira revolução em andamento, cujos benefícios iremos colher ao longo das próximas décadas.

Um primeiro mito que precisamos derrubar é o de que o EaD canibaliza o ensino presencial tradicional. Os dados do setor mostram claramente que isso não acontece. O número de alunos mensalistas do ensino presencial inclusive registrou leve aumento nos últimos cinco anos com os dados disponíveis, para a casa dos 3,6 milhões, em 2019. Amplamente reduzido – levando a uma busca pelas mensalidades mais baixas do EaD – foi o financiamento público ofertado. Em 2014, o Fies, principal programa desse tipo, mantinha quase 1,4 milhão de pessoas estudando. Em 2019, esse número era de 700 mil estudantes.

O crescimento do EaD se deve a três grandes grupos de alunos, com tamanhos semelhantes. O primeiro são os que perderam o financiamento público, logo a condição financeira para cursar o presencial. A esses somamos as pessoas que estão em municípios de pequeno porte, longe dos grandes centros, que não teriam condições de receber um campus, mas que comportam um polo EaD. Por último, temos uma massa de 18 milhões de pessoas que concluíram o ensino médio, mas que não ingressaram no ensino superior. Essas pessoas estão vendo colegas buscando, com sucesso, uma educação adicional em diferentes momentos da vida e estão voltando a estudar.

Para as pessoas que não têm dinheiro, tempo ou acesso físico, o EaD é uma alternativa excepcional – quando não a única opção. Para muitos de nós, que vivemos com padrão de renda, conforto e acesso que em nada deve ao de países ricos, é difícil manter em mente que para um morador do município de Carutapera – cidade com 24 mil habitantes a cerca de 345 Km de São Luís, com IDH de 0,556 e PIB per capita mensal de R$ 580 – o acesso a uma universidade é uma possibilidade apenas para uma parcela ínfima da população. Esse é o perfil típico e propício à instalação de um polo de ensino a distância – um exemplo entre milhares, literalmente, em todo o Brasil.

Nos bons EaD em geral os resultados do Enade são comparáveis ou melhores que os do presencial das mesmas instituições. O conteúdo a que esses alunos passam a ter acesso é produzido por professores das melhores universidades do país, privadas e públicas, complementado por palestras de ministros, esportistas, CEOs, educadores renomados e muitos outros. É a tecnologia levando conhecimento até outro dia restrito aos jovens da elite para todas as classes sociais, em todo o país e em todos os momentos da vida.

A metodologia de ensino é nativa digital, criada para o smartphone e para a internet de baixo desempenho, bastante comum em diversas regiões do país. O conteúdo é formatado pensando no engajamento dos jovens (de todas as idades), buscando sermos competitivos com a miríade de distrações que o mundo moderno proporciona – em especial as redes sociais e os jogos eletrônicos. São vídeos curtos, textos, pesquisas na internet, testes rápidos, resumos, podcasts, sempre atualizados e se alternando na velocidade do mundo atual. No presencial, o tempo de ensino é definido pelo professor, enquanto no EaD quem faz o tempo é o aluno.

Os polos têm um papel muito importante, muito além da função regulatória de monitorar as provas. Existem polos de todos os tipos, mas os que mais me fascinam são os do interior. São estruturas muito simples, em linha com os 40 ou 50 alunos que atendem. Estão lá para ser um ponto de contato e orientação, mas também oferecem algo que mais de 90% dos brasileiros não têm em casa: um ambiente de estudo adequado, com um canto tranquilo e silencioso e internet de qualidade. Nessas salinhas espartanas, com 30m2 ou 40m2 e mobília simples, as portas do ensino superior se escancaram.

E quem está engajado nesses polos do interior? Temos a professora autodidata, que já dá aula na escola municipal local, e que precisa de mais ferramentas para fortalecer a educação de base. Temos o mestre de obras que quer ser engenheiro e construir um prédio. O dono do mercado que quer expandir seu negócio, e o artesão que quer vender on-line para o mundo. Empreendedores, dos quais tanto dependemos como sociedade, e que agora, de forma simples, flexível, ampliam tremendamente seus horizontes. São pessoas que acessam uma universidade, via de regra, pela primeira vez na história de suas famílias.

Não tenhamos, portanto, constrangimentos, dúvidas ou preconceitos com relação ao EaD. As ferramentas digitais vieram para incluir e dar acesso. E a velocidade que estamos abraçando essas ferramentas é fantástica. Temos uma pequena revolução em andamento, que, no último censo (pré-pandemia), já contemplava 2,3 milhões de brasileiros. Número que irá, sem dúvida, seguir crescendo muito, abrindo uma imensa oportunidade para transformar o futuro do nosso país.

* CEO da Yduqs e professor da Estácio

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

ARTIGO: VERNIZ DE POBRE 


Por: Itamilson Lima (Eleitor de São Luís) 

“Sou apaixonado pela minha cidade, SOU FILHO DE UM ANTÔNIO COM UMA MARIA. Dessa forma o deputado federal Eduardo Braide começa sua apresentação no primeiro debate entre os candidatos a prefeito de São Luís, evento promovido pela Rede Band de televisão em parceria com a TV UFMA e rádio Universidade FM no dia 01 de outubro. 


A capciosidade por trás da apresentação de Braide demonstra sua preocupação em construir para o eleitor uma imagem de um homem simples, comum e do povo. Por isso é importante destacar que esses nomes bastante comuns entre trabalhadores pobres e facilmente encontrados em cada esquina de nossa periferia sempre designaram também ricos e nobres ao longo da história. Dito isto, Eduardo é filho de um certo “Dom Antônio” que não é o Orleans de Bragança e de uma Maria da estirpe da Antonieta.

A disputa pelo poder ao longo da nossa história tem sido recheada de artifícios e artimanhas de líderes políticos que visam ao convencimento do povo menos favorecido - maioria entre os eleitores - de que o seu nome é o mais interessante pra receber sua confiança. Todavia, embora haja e é importante que exista diálogo entre esquerda e direita por ser atributo da democracia, é fundamental entender que o “dono” do espaço onde a tratativa acontece é determinante para saber quem cede mais ou menos em favor do outro. Ou seja, o diálogo é indispensável, mas é a classe que o governante representa que certamente cederá menos.

Os termos “direita” e “esquerda”, bastante comuns no ambiente político, têm certa complexidade para ser explicados em reduzidas linhas. No entanto,se consegue entender mais rapidamente do ponto de vista do papel do estado. A “direita” tradicionalmente defende um “Estado Mínimo” e enxerga o bem-estar social patrocinado pelo governo como um paternalismo entravador do desenvolvimento econômico do país.

Se isto procede, como os governos dos petistas Lula e Dilma conseguiram desenvolver a economia, pagar a nossa dívida externa, retirar mais de 38 milhões de pessoas da pobreza, elevar os investimentos gastos com saúde e educação e posicionar o país entre as 6 maiores economias do mundo - tudo isso sem a austeridade do “Estado Mínimo”? Muito pelo contrário, se pautaram em uma robusta agenda de programas sociais, provando que a selvageria dos liberais passa muito mais pela ganância e desejo de manutenção dos privilégios de um seleto grupo que por ampliar o conceito de desenvolvimento social e dignidade para a população em sua diversidade socioeconômica.

O atual governo brasileiro, por ser de extrema direita, tem sido a maior manifestação de Estado Liberal já experimentado no Brasil e apresenta-se profundamente comprometido com as grandes fortunas, o que leva os mercados a uma disputa desenfreada e à acumulação desigual do capital. Um governo que precisa reduzir o papel do estado para alcançar seu fim e reforça o aprofundamento das desigualdades sociais. Não é mera coincidência que as estratégias adotadas são a retirada de direitos trabalhistas e previdenciários do trabalhador e restrição dos gastos públicos, sobretudo os destinados a programas que visem beneficiar a população mais carente. Como se pode ver, trata-se de um governo completamente voltado aos interesses da grande burguesia. De olho na prefeitura de São Luís, eis a razão da maioria dos candidatos de partidos aliados ao atual governo federal se esconderem atrás de um discurso de defesa aos menos favorecidos e citando da boca pra fora denominadores comuns falaciosos.

“Meu lado é o lado do povo. Eu, toda minha vida pública, estive ao lado do povo nas minhas votações, nas minhas atuações (...) o meu lado é o seu, que acorda cedo, que precisa pegar ônibus lotado e essa realidade que vai acabar a partir de janeiro”. Eis a afirmação de Eduardo Braide, candidato pelo PODEMOS, um dos principais partidos aliados do governo de Jair Bolsonaro, em uma de suas réplicas no citado debate. Candidato este que está coligado a outras legendas da base bolsonarista e, portanto, descomprometido com Antônios, Marias, Franciscas, Josés que estão na base da cruel pirâmide social brasileira quando aplaude ou faz vista grossa a tanto retrocesso e humilhação.

Diante de tal discurso, ressoa em mim a sensação de que Braide fantasia sobre a realidade do “pobre”: sujeito que simplesmente não faz parte das altas castas privilegiadas. Talvez pela avidez em disparar frases de efeito, o candidato não se dá conta que oferece ouro de tolo aos seus possíveis eleitores com tal aposta. De fato, condução lotada é um problema que merece atenção, mas está longe de ser um dos maiores desafios enfrentados pela população mais ampla em nossa cidade (assim como em qualquer outra capital brasileira onde predominam os interesses da iniciativa privada e a ausência do estado). Desse modo, o filho de um Antônio e Maria nobres expõe um conhecimento muito fragmentado das dores e delícias da população menos abastada - o que é natural já que sua origem é outra completamente díspare dada a história de seus familiares de classe alta: seu pai foi cinco vezes Deputado Estadual, Presidente da Assembleia e Governador do Maranhão.

O bom discurso faz bem, empolga e, às vezes, até encanta, mas é a partir dos atos e conchavos que se conhece verdadeiramente quem o líder está representando: o povo ou a burguesia?


sexta-feira, 3 de julho de 2020

ARTIGO: Eleições CREA / CONFEA /MÚTUA 2020 - Um novo futuro para o Maranhão

(Foto: Divulgação)

Artigo: por Genilson Pavão 

Caros colegas da Engenharia, Agronomia e Geociências do
Maranhão, quero mostrar para vocês um pouco da minha história para que me conheçam mais e saibam meu engajamento em prol das profissões que integram o sistema CREA / CONFEA.

Primeiramente, sou graduado no Japão em 02 Engenharias - Elétrica e Eletrônica. Logo após algum tempo ingressei na UEMA para Engenharia Mecânica e na UFMA para mestrado e Especializações.

Fui conselheiro suplente no plenário do CREA-MA na modalidade elétrica e muito atuei para eficiência da fiscalização do exercício ilegal da profissão como também para a melhoria da engenharia pública no estado.

Atualmente além de empresário do setor de engenharia de projetos e consultoria, também sou professor do curso técnico de segurança e eletromecânica em diversas escolas técnicas profissionalizantes do estado. Nas poucas horas vagas, em algum momento atuo também como professor universitário convidado da UEMA, CEUMA, UFMA nos cursos de engenharia elétrica, civil e mecânica.

Nossa luta pelas empresas que passamos e como também pelas instituições sempre foi de incentivo aos profissionais da Engenharia e Geociências do estado e do Brasil na sua valorização pois toda a riqueza do pais parte dos que projetam, constroem, analisam, operam e fazem a manutenção dos sistemas mecânicos para o perfeito e seguro funcionamento das indústrias, no campo e nas cidades, e muito contribuem para o desenvolvimento econômico e social do Maranhão e do Brasil.

Contamos com o seu apoio para construir uma grande parceria entre o CONFEA -MA e o CREA-MA, conto com vocês, dia 15 de julho vote para conselheiro federal GENILSON PAVÃO #NÚMERO - 57.

A atuação do Sistema CONFEA/CREA e Mútua precisa ser coesa, forte e sólida para que os profissionais que o integram e a sociedade possam sentir os seus efeitos na defesa social e no desenvolvimento dos Estados e do Brasil.

(Foto: Divulgação)

Por isso, também apoiamos o Engenheiro Joel Krugger candidato à presidência do CONFEA, Luís Plécio para candidato a presidente do CREA-MA, Helder Câmara para diretor geral da Mútua-MA.

Eles aqui no CREA-MA, e nos no CONFEA, trabalharemos para tornar o Sistema ainda mais forte e eficaz e que com esse trabalho conjunto propiciaremos com a ajuda do voto de vocês diversos benefícios para nossos profissionais filiados e para a sociedade.

Siga-me no instagram: @_sergio.carvalho

quarta-feira, 29 de abril de 2020

GENÊRO: O FATOR DE RISCO QUE NINGUÉM CONTA NA QUARENTENA

[Foto: Divulgação]

Maynara Costa de Oliveira Silva
Doutoranda em Ciências Sociais (UFMA) e Professora do Centro Universitário Estácio São Luís


Em dezembro de 2019, o mundo se deparou com a crise sanitária causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2). A doença surgiu na China, mas logo se alastrou pelo mundo. O vírus se transmite através de gotículas produzidas nas vias respiratórias das pessoas infetadas, tosse e espirro são os gatilhos dessa guerra. Medo, pavor, e novas políticas foram produzidos nestes últimos tempos.

O coronavírus chegou ao brasil em pleno carnaval de 2020, os quatro dias de folia foram trocados por desespero na quarta-feira de cinzas. Enquanto alguns festejavam outros procuravam elaborar novas legislações, além de inovações que visem a segurança sanitária, o alargamento de novas infraestruturas da saúde e saberes biomédicos.

Junto a tragédia anunciada, não tem como esquecer os demais problemas de saúde pública que afligem o Brasil, para o debate trazemos como exemplo a pandemia promovida pelo vírus do machismo, que infecta alguns sujeitos a partir da reiterada construção de gênero, que reverbera padrões sociais binários em nossa cultura. Inicia com torces de violência psicológica e espirros que desqualificam moralmente as mulheres, em alguns casos esta pandemia sequela ou mata as mulheres.

Estima-se que no Brasil a cada uma hora 503 mulheres são vítimas de violência doméstica (DataFolha/FBSP, 2017), ocupando a 5º colocação no ranking mundial de mortes de mulheres, que tem como principais agressores marido, ex-marido, companheiro, ex-companheiro, namorado ou ex-namorado, o palco principal desta tragédia é a casa.

Casa, portanto, para muitas mulheres não é sinônimo de proteção, mas de violência. No entanto, em razão da pandemia promovida pelo COVID-19, o Brasil encontra-se em isolamento social, a população está em quarentena, presas em suas casas, tornam-se presas dos seus conhecidos.  Neste momento, o lar se constitui enquanto paradoxo de existência para algumas, se na rua pode morrer de corona, em casa morre por existir. Deste modo, partirmos da seguinte pergunta: qual o corpo legível a cuidados do Estado durante a pandemia do COVID-19?

Estamos de frente a uma transformação da violência de gênero, Rita Segato ainda em 2012 anunciou que a humanidade testemunha um momento de tenebrosas e cruéis inovações na forma de vitimar os corpos femininos e feminizados, uma crueldade que se difunde e se expande sem contenção, e que não se distância de dentro das casas, do matrimonio, ao contrário, se aproximam.  A “obrigação, por ser esposa dele” “a falta de trabalho, o provedor não provendo”, cria uma moralidade, que reduz a objeto o corpo das mulheres e ao mesmo tempo inocula a noção de pecado nefasto, crime hediondo e todos os seus correlatos (SEGATO, 2012).

A exemplo desta moralidade perpetuada, o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro em alguns de seus discursos elabora uma análise pessoal que busca explicar o porquê da violência contra mulher aumentar em tempos de isolamento social “tem mulher apanhando em casa. Por que isso? Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como é que acaba com isso? Tem que trabalhar, meu Deus do céu. É crime trabalhar?”.

Para o chefe de Estado que no passado declarou que determinada mulher não merecia ser estuprada pois era feia, hoje reitera que outras merecem apanhar por falta de comida em casa. A afirmação não só traduz um desrespeito a vida das mulheres, mas também uma despreocupação do Estado com sua dignidade, em virtude a privilegiar uma economia equilibrada. A ética protestante e o espírito do capitalismo reverberam o discurso do presidente, que vincula a opressão contra as mulheres dia após dia em nome da exploração de uma classe sobre a outra.

A partir da quarentena podemos pensar como se opera a economia moral nas cenas de cuidado em relação à vítima de violência doméstica. A economia moral, segundo Didier Fassin (2014), diz respeito às dimensões acionadas nos processos de valoração e hierarquização da noção de cidadania que conformam os tratamentos direcionados às vidas.

Deste modo, é importante assentar o termo “necrobiopoder” proposto por Berenice Bento (2019), em alusão ao termo conceito de biopoder de “Michael Foucault” e “necropoder”  de Achille Mbembe, uma vez que é a partir desses corpo discursivo (posicionamentos do presidente e demais parlamentares) que se pode ver o necropoder e o biopoder atuando para operacionalizar a leitura dos corpos que saem da relação de subalternidade para um status de igualdade legal. O Estado, portanto, aparece como agente fundamental que distribui de forma não igualitária o reconhecimento de humanidade as mulheres (BENTO, 2019).

Ao contrário de um vírus incontrolável, como é o caso do COVID-19 a violência contra mulher é construída a partir das práticas culturais, socialmente reiteradas. Essa educação dos corpos aos gêneros hegemônicos (homem/mulher) objetiva organizar os sujeitos para a vida edificada a partir do sistema de ideias da complementaridade dos sexos.

A quarentena pode ser compreendida enquanto fator de risco, que causa “confusões” nos “papéis” provocando, direta e imediatamente, “perturbações” e possíveis violência uma vez que estreita as relações de poder, e reitera um terrorismo contínuo. Existindo, assim, uma assimetria a cada enunciado que incentiva ou inibe comportamentos, insulto ou divisão do trabalho doméstico, a cada unha desfeita e cabelos emaranhados, afinal “imagina a mulher sem fazer sobrancelha, cabelo, unha, não tem marido nesse mundo que vai aguentar” além disso, “se a pessoa quisesse matar a mulher e os filhos, ele vai e bate na igreja, está fechada. Daí ele fala: ‘É um aviso de Deus para eu voltar lá e matar”, a fala do vereador Wellington de Oliveira (PSDB-MS) ratifica a compreensão do presidente Jair Bolsonaro acerca da suposição do que é ser uma mulher.

Deste modo se as ações não conseguem corresponder às expectativas estruturadas a partir de suposições, abre-se uma possibilidade para se desestabilizar as normas de gênero, que geralmente utilizam da violência física ou/e simbólica para manter essas práticas às margens do considerado humanamente normal, assim percebe-se a crescente e perene produção de violência de gênero, sobretudo nas relações entre homens e mulheres. No brasil, foi percebido que houve um aumento de 9% das denúncias de violência doméstica contra mulher recebidas pelo Ligue 180, segundo dados do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

 José Carlos dos Anjos (2017), em um dos seus textos fala que vivemos em guerra, uma guerra racista, e vivemos! Mas vou mais além, vivemos em uma guerra também entre os gêneros. Aqui a violência e a morte de tão cotidiana, tornar-se doméstica (EFREM FILHO, 2011). O Estado de exceção não é mais exceção, ele refunda a forma que o Estado opera, é o seu próprio modus operandi (DAS & POOLE, 2008; AGAMBEN 2002). O estado brasileiro carrega consigo o pressuposto que a expressão máxima da soberania reside em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer, deste modo, pedimos: nos deixe viver! Nossas vidas importam, nossas vidas são enlutáveis!

quinta-feira, 23 de abril de 2020

ARTIGO - ISOLAMENTO SOCIAL E ASPECTOS FINANCEIROS DAS PRAGAS NA IDADE MÉDIA

[Foto: Divulgação]

Por Rodrigo Rainha – Historiador e Professor da Estácio  

A Idade Média e a Idade Antiga não tiveram uma pandemia, pois não existia, naquele momento, essa conceituação. A expressão latina era chamada de peste ou praga e isso ocorreu nos dois períodos históricos. Elas eram tratadas como um aspecto personalizável, uma ideia de que a morte e a agonia da doença estivessem chegando juntas. Essa sensação física pode ser pensada como notória, e clara, é possível observar a doença caminhando, chegando de cidade em cidade, de relato em relato.  

Como não deixavam de acontecer em poucas gerações, a tradição oral contava como as mazelas se moviam e eram avassaladoras. As pragas atingiam, principalmente, as grandes e poderosas cidades - afinal de contas eram as regiões mais populosas, as mais sujas e as que tinham mais interação. As grandes áreas rurais tinham outros flagelos, mas a peste é uma doença de sociedades estabelecidas, de cidades grandes, de comércio e do desenvolvimento, quanto maior mais avassaladora. Constantinopla, em Roma, depois, na Idade Média, em Gênova, Veneza, Paris, Porto, Londres, entre outras são grandes exemplos. Para essas populações ocidentais, a peste significava grandes sinais: sinal de que algo deu errado, anúncio do fim do mundo - várias vezes se apegaram ao apocalipse para a explicar o cavaleiro da doença e da morte, caminhando juntos vindo trazer o terror e o extinção da Terra. Para tentar estancar essas mazelas, as fórmulas recorrentes eram trancar uma cidade, um rei ou um senhor não deixava que ninguém saísse da muralha para não levar a peste. Sendo assim, o isolamento social sempre foi visto como uma solução... 

A mais famosa das pestes medievais aconteceu a partir do século XIV na Europa Ocidental e tem um número que chama atenção, 2/3 da população havia morrido em detrimento da Peste - esse número não tem sentido, não existem censos que provem isso, mas um conjunto de indicativos mostram uma estagnação do crescimento populacional, o que já é algo muito grande. Mas o que aconteceu? A Europa ao longo dos séculos X - XII vinha tendo um forte crescimento econômico e, com isso, aumentou as rotas de comércio e as trocas de produtos além de pessoas, como há muito não se via.  Acontece que quando populações com menos contato se encontram sempre trocam muito mais do que comércio, trocam seus germes, vírus, variações absolutamente gigantescas, e que de uma população para outra a defesa ainda não está organizada. Por conta de todos estes fatores, o corpo acabou sofrendo um momento até aprender como combater tais "inimigos". Muitas vezes, os hábitos humanos precisaram ser reconstruídos para dar sentido aquela nova forma de ataque. Afinal, hoje é quase impensável em não tomar um banho como um gesto de higiene e que não devemos comer nossas comidas com as mãos. Contudo, durante a Idade Média, alguns defendiam que banhos eram uma forma perigosa de prazeres e era muito comum comer com as mãos. Absurdo, não, só era um outro mundo. 

Enfim, hábitos de higiene questionáveis, aumento das pessoas concentradas nas grandes cidades, circulação de mercadorias e novos vírus, bacilos, bactérias, geraram um conjunto de ciclos ao longo dos séculos XIV e XV chamados de pestes.  Engana-se quem imagina que só aconteceu um só episódio, foram vários, diversos. Estas doenças surgiam, iam embora e, depois, voltavam. Desapareciam e reapareciam com uma fúria gigantesca.  Seu maior fator? Não poupava ninguém, uma pintura famosa fala da dança da morte e como ela levava reis e rainhas, levava princesas e camponeses, clérigos e pecadores.  A morte rondava...  

De fato, aponta-se em duas pestilências fundamentais uma mais mortífera e a outra mais horrenda.  A mortífera é a peste pulmonar, a pessoa tossia e botava sangue e morria por problemas decorrentes da fraqueza dos pulmões, a outra a peste negra, nesta surgiam feridas enormes nos gânglios inflamados e estes cuspiam um pus escuro e fedorento, menos agressiva no contágio, mas um terror.... Aliás como sempre, é bom lembrar que o medo e a doença sempre andam coladas!!! 

Esse contraponto é importante, viver em núcleos urbanos e centros de concentração é estar submetido a problemas com a higiene - os esgotos, os ratos e as baratas são companheiros fiéis e volumosos, analisando bem, a doença e um mal recorrente, pois nosso corpo a combate e a recombate. Este ciclo é um duelo sem fim...  o que varia é o que temos para combater...  Já se tentou oração, os contos de fada já falaram de heróis que vinham para combater, músicas, santos, até um flautista que levava os ratos...  Os gatos já foram acusados e sofreram massacres, mulheres foram queimadas por disseminar a peste, e até os judeus que tinham um hábito de um banho semanal e se contaminavam menos, por isso, foram condenados.  A partir do século XVI passamos a abrir os corpos, estudá-los, a ciência, os sanitaristas, as vacinas....  Muito já fizemos, mas nunca devemos duvidar, novas doenças sempre virão.